09/03/2017

O pior é sempre possível, a esperança também.


Pastoralia, de George Saunders (Antígona, 2017)

Há os que não têm salvação, e viver é provar que o mal está sempre à espreita – apenas precisa de encontrar a vítima perfeita e os palermas ajustados.
(Para ler mais clique aqui)

08/12/2016

Testamento

sabes o que tens a guardar
mesmo que a família não continue
mesmo que tu ou o teu irmão
não deixem um filho
um nome que nos dê continuidade
silva ou ribeiro

deixará de haver alfaiataria
o ofício do teu avô, do teu pai,
que fazer às três máquinas, máquinas sem nome?

À casa da avó
que destino?
A terra há muito que foi esquecida
as uvas cedidas a terceiros
o gado entregue à própria matança.

Falemos sobre isso agora
o feriado é-nos útil
estás aqui, a tua visita vem a tempo
o tempo que tenho administrado para o que ainda faz falta.

Esta casa é vossa
um piso para cada um.
Para mim e para o teu pai 
é preciso cada vez menos, cada vez menos
um t-zero.
Zero.

Já sei que não me queres mais velha
nem tão pouco imaginas
que um dia eu esteja cansada, quieta
sem atender a todas as prateleiras.

Também não queres estes assuntos por agora,
ainda levo sozinha a água a todo o jardim 
sei como se iluminam as rosas, os malmequeres, 
ainda atento a vida, eu sei,
mas vi morte suficiente a apanhar gente desprevenida.
Por isso
ouve

ouve, filha
o que um dia deixarás de ser.


Gilbert Garcin


29/11/2016

Paulo Moura: Depois do Fim

Aulas de terrorismo

Como derrubar um avião. Como atacar um submarino. Como fazer explodir uma ponte, uma estrada, um túnel. Numa das casas habitadas, em Cabul, por elementos da Al-Qaeda, encontrei um conjunto de cartões pintados à mão com instruções para actos terroristas. 
Eram cartões com um metro por 60 cm, com desenhos coloridos e pequenos textos em árabe, feitos para afixar na parede e... dar lições de terrorismo.
Nos desenhos, simples mas precisos, feitos à régua com canetas de feltro, estavam assinalados com cores diferentes os motores e os depósitos de combustível de um avião a jacto, com sinais nos pontos a ser atingidos por um míssil ou um explosivo, os vários pontos de vulnerabilidade de um submarino, os nichos onde deveriam ser colocadas cargas explosivas para destruir vários tipos de pontes, desde uma de arcos em pedra até uma ponte pênsil do tipo da 25 de Abril em Lisboa.

Paulo Moura, Depois do fim, Elsinore, 2016


12/11/2016

Novembro

Que não haja ruído
ou destruição alta
a morte
deve ser certeira
isenta de vénias
ilações ou memórias falsas,
que não guarde soluços
nem pequenas penitências
para o martírio comum.
Mantenha salva a luz
a penumbra feliz dos objectos
que ignoram o pó e o seu peso quando a ternura os chama.
Se um dia voltar
hei-de perceber qual o sentido dessa vida.

Jurgen Klauke